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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O BOLO DE GOMA DE MANDIOCA, ASSADO ENROLADO EM FOLHA DE BANANEIRA, DE MÃE AURORA



   Aurora Laerte Cavalcanti, era o nome de minha avó paterna. Mulher meio alta, franzina, meio brava, faces com umas cavas, cabelos já esbranquecidos, andar meio lento, mas não pela idade, acredito que mais pelo sofrimento de sua vida, mas aparentava ser uma pessoa tranquila, durona e firme. Lembro também que ela, costumava esbravejar com o meu pai, dava-lhes uns “gatos” de vez em quando, que apesar de casado, pai de família, era metido à farrista e isso não era do feitio de uma pessoa feito minha vó que vinha de uma linhagem familiar da fidalguia, “Laerte com Cavalcanti”, que se casou com Manoel Modesto de Albuquerque. Não sei se ela tinha o patronímico de meu avô no nome dela, coisa não muito comum na época em que eles se casaram. Ela era bem mais alta do que meu avô “Mané Modesto”. Ele deveria ter em torno de 1,60 m e ela, certamente, 1,70m. Era o velhote baixinho e a velha magra alta.
   Guardo poucas lembranças de minha vó paterna, entretanto, às que guardo dentro de mim, são fortes e nunca as esqueci no divagar do tempo. Uma delas, é que, nos dias de sábados, ela tinha uma banca por trás do Mercado Público, onde negociava com a venda de café, bolos, algumas quinquilharias de comidas, entretanto, o que mais queria mesmo, era chegar, sentar num banco horizontal de madeira rústica e me deliciar com os bolos de goma de mandioca, que ela fazia assado com folha de bananeira, tendo como ingredientes apenas água, açúcar, cravo e erva doce, se não me engano. Deliciava-me também com esse tipo de bolo, feito por Madrinha Auta, mãe de Blésman Modesto e casada com meu tio Zé Modesto. Mas os da minha vó, era certo todo sábado, quando vinha do Sítio Cigano para à feira na cidade de Buíque. Lambuzava-me com àquelas guloseimas e acompanhado por um forte café, daqueles feito do próprio caroço em um pilão apropriado. Era o café de verdade. Gosto puro, sem ingredientes químicos como os que tomamos nos dias de hoje. Era o puro café torrado em caco de barro e depois, pisado no pilão apropriado.
  Quando chegava a aproximar-me de minha vó, geralmente acompanhado por minha mãe, trata-se logo de dizer mansa e timidamente: “bênça, sua vó!” – Era assim mesmo que pedia à sua bênção. Passado o tempo achava estranho chegar diante de minha vó paterna e dizer: “bênça, sua vó!” – Realmente era estranho. Depois foi que vim a perceber, que passei a usar esse linguajar, em face de meu pai ou minha mãe, quando diante de minha vó, costuma um ou outro, a dizer: “menino, dê “bênça” à sua vó! – E assim, ficou no meu costume de menino. Deveria ter lá por volta de 8 para 10 anos. Não lembro bem. Delimitar no tempo essa passagem de minha vida, é coisa difícil, diante da infância sofrida que tive. Mas uma das coisas que nunca me saiu da mente, foi a questão de me deliciar dos bolos rudimentares da minha avó paterna, quando vinha do Sítio Cigano para à cidade, nos dias de sábados, que era o dia da feira e, a primeira coisa que fazia, era me dirigir à barraca de minha vó, para me deliciar com os bolinhos artesanais feito de goma de mandioca, certamente receita herdada dos índios, que ainda nos dias atuais, tem esse costume de fazer esse tipo de iguaria no assado de comidas com produtos derivados da mandioca e assados envoltos por folhas de bananeira.
     Aurora Laerte casou com o meu avô, certamente pela influência e poderio que ele demonstrava ter na época. Sobrinho do Padre João Ignácio de Albuquerque, era uma boa escolha para formar família. Com meu avô, “mãe Aurora”, como a tratava também, teve quatro filhos: Zé Modesto, o primogênito, Milton Modesto (meu pai), o segundo, Astrogilda Modesto, a terceira e, Nilton Modesto (o caçula). Esses foram os filhos tidos com Aurora Laerte Cavalcanti, que foi uma mulher batalhadora nesta terra para criar e dar bons exemplos aos filhos. Não se podia dizer um primor de família, mas foi o alastramento da família “Modesto” em Buíque, que veio com o Padre João Ignácio de Albuquerque, da região de Umbuzeiro, na Paraíba, ainda na época do Império. O Padre era de uma família enorme. Tinha vários irmãos e irmãs.
   Uma das cenas fortes que ficaram em minha vida também, foi o leito de morte de minha avô paterna, minha “sua vó”, mãe Aurora... - Se não me engano, ela morava numa casa, vizinha onde hoje fica o fórum de Buíque, que na época era a Biblioteca Pública Municipal de Buíque. Lembro dela agonizando; sofrendo muito com a lentidão de uma doença, que a vinha consumindo aos poucos; não lembro bem que tipo de doença era, mas que tinha até dificuldades para deglutir um naco de carne, que alguém chegava, colocava em sua boa e ela, já sem forças,  moribunda, só fazia mesmo com a boca murcha, era chupar à carne para se alimentar da saliva do gosta da carne. Era um estado entristecedor àquele leito de morte em sua cama. Era para mim como se está envolta numa escuridão, numa espécie de purgatório, já chegando ao inferno. Não! Inferno não! Uma mulher daquela fibra não iria queimar nos infernos de jeito nenhum! – Fazia minhas ilações inocentes.
Naquela época, não tinha hospitais para cuidar de doentes terminais, que quando a coisa não tinha jeito, se levava para morrer em casa mesmo e assim ocorreu com a minha avó paterna. Depois de alguns dias desse calvário, ela finalmente veio a falecer. Não sei que ano era. Não lembro bem, mas deveria ser nas proximidades do final da década de 50 para início da de 60. São coisas assim que nunca saem do imaginário da gente. Minha vó, sua vó, mãe Aurora, que nome doce de lembrar, da Aurora que nem sei em que lugar estar, mas que jamais voltará. Só lembranças de uma Aurora, que foi a minha Aurora, vó Aurora, do meu bolo de goma que tantos sábados de feira, saciou à minha fome.

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